Às armas!

À época  cursava a última semana do ensino técnico profissionalizante em eletrônica quando um popup surgiu na tela de meu tablet de estudos. Comia despreocupado o arroz com feijão sem graça da cantina, misturado a algumas fatias do mítico bife acebolado do local. Olhei com curiosidade o aviso piscante e insistente com o brasão do Vaticano. Teoricamente o aparelho deveria estar desligado e não  lembrava de nenhum outro aplicativo capaz daquela proeza.
Nunca fui um homem de temores e isso se arrasta desde a juventude, mas aquilo à minha frente não fazia sentido e até que fizesse eu não pretendia tocar no eletrônico. De fora, acredito, a cena deve ter sido hilária, afinal eu levava uma garfada à boca quando tudo aconteceu. Sem exageros, devo ter ficado bem uns cinco minutos em silêncio e estático, o garfo no meio do caminho e a comida lentamente escorregando de volta ao prato.
A maioria teria metido o dedo na tela e resolvido a parada, mas depois do extermínio filipino, feito por correio, tem quem tivesse ficado mais esperto. Repassei a origem do tablet, como o adquirira, o que havia instalado nele, se já tinha ouvido falar de coisa parecida, até que finalmente eu encontrei a deixa. Quase esquecida, em algum canto de meu cérebro, lá estava a memória de quando o havia recebido. Era bem clara, relembrei de como logo ao inicia-lo tivera de responder a um questionário detalhado, uma puta de uma burocracia gigante. Uma das seções era dedicada a dados militares e exigia a escolha de uma religião.
Não era um católico muito aplicado naqueles tempos, talvez fosse umas duas ou três vezes ao ano à igreja, e, admito, pensara seriamente em clicar em “agnóstico”. Mas e se minha mãe ou avó soubessem disso? A simples projeção da dor de cabeça me demovera da ideia no ato. Teria sido um erro? Marquei Católico Apostólico Romano e  tchun! Pois ali estava, anos depois, o brasão do “Chefe” na tela.
Toquei a superfície e o escudo do Vaticano girou por alguns segundos no centro da imagem, logo, seguiu-se um vídeo. E claro, lá estava o sumo pontífice com suas tradicionais vestes brancas e abaixo, ora ora ora, uma imagem de São Jorge… quem diria não é?
Ok, ok, que diferença isso faz? Você e muitos outros poderiam perguntar, já que para leigos  a pergunta até faz sentido. Mas isso não era, obviamente, meu caso,  o único “sãopaulino” em uma casa de corinthianos muito fieis  ao santo. De qualquer forma, resumidamente, a presença dele, ali, era um interessante absurdo.
O motivo: décadas antes o cavaleiro, digamos, havia tido sua cobertura espiritual suspensa pela Igreja, já que haviam dúvidas (suficientes) sobre sua real existência. A ação valia para todo o planeta, exceto, na Inglaterra e no Brasil, países com muitos devotos e para os quais Roma fizera um agradinho. Só que claramente aquela era uma transmissão mundial e não local, pois era feita em latim e legendada, então… o que diabos aquele homem matando o Dragão fazia ali, gigante, logo abaixo do púlpito papal?

Isso estava para ser respondido…

Após as típicas saudações, o papa leu uma carta de condolências e apoio ao povo de Nova Guiné. Na manhã daquele dia, centenas de milhares haviam morrido devido a um bombardeio vindo da Indonésia. A   catástrofe só não tinha sido maior graças a equipes de assalto australianas e kiwis (apelido dos neozelandeses) que haviam frustrado o lançamento de quatro mísseis armados com, pelo menos, uma dúzia de ogivas nucleares. Os objetivos eram a Nova Guiné, Austrália, Nova Zelândia e Japão.
A Nova Guiné era uma das famosas fronteiras tomadas por conflitos religiosos entre o Império islâmico e as várias democracias de maioria cristã do mundo, e aquele ato maluco, sem dúvidas, tinha sido a gota.

De acordo com a Santidade ataques iguais haviam sido frustrados em outras 15 localidades por todo o Globo, parte de uma ação coordenada contra o Ocidente. Se tivessem dado certo, capitais nas Américas, Europa e África estariam em chamas. Uma comissão mista de todas as potências havia sido montada em esquema de urgência e o Vaticano convocava os católicos a  se alistarem imediatamente na Catedral mais próxima.
Talvez  cinco anos antes eu não fosse lá muito religioso, mas as coisas eram bem diferentes naquele momento. Empurrei o prato, enfiei o Tablet na mochila e me dirigi a porta.
Próxima parada: Catedral da Sé. Era hora de matar o Dragão islamocomunista. Antes que ele nos devorasse.

 

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Sobre Dalton Almeida

Escritor, jornalista e game designer.

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