O cair da noite

Sentado sobre um monte de cinzas Roberto sentiu o arrepiar de espinha típico do fim de tarde. Com o pôr-do-sol a cobertura homogênea de um deserto de lixo quente e hostil acabaria. Era o momento em que centenas de drones inimigos, desativados e escondidos a grandes alturas sobre as carcaças dos altos prédios que um dia haviam composto a Berrini, entre outras avenidas próximas, seriam religados. Com eles o caçador virava caça e seu calor corporal o cheiro que atraia as bestas armadas até os dentes.

Naturalmente, haviam roupas que ajudavam a esconder a assinatura térmica e esconderijos entre os escombros de São Paulo que formariam uma barreira impenetrável a qualquer coisa que não fosse um bombardeio altamente especializado. Inclusive, o corriqueiro seria uma retirada estratégica a deixar por conta dos drones voadores da Comissão o trabalho de caçar seus charás inimigos….- Mas não nessa noite. Hoje o serviço de inteligêcia precisa de um autômato inteiro e funcional. – explicou Roberto à equipe de novatos, ainda crús, que acabara de receber.
– Felizmente, para nós, os mais modernos e avançados estão em território Norte-americano, nos escombros de Washigton e Nova Iorque. Ainda sim, não será moleza pegarmos um inteiro. Ao notarem que estão encurralados estes desgraçados avisam outros pedindo reforços e, no limite, tentam se auto destruir – finalizou enquanto batia a poeira da roupa e passava a alça de seu fuzil por sobre a cabeça, a ajustando bem sobre os ombros.

– Para hoje rapazes, utilizaremos aquele velho container – apontou para um caixote metálico semi enterrado em entulo – A equipe de engenheiros que o construiu. Embora pareça normal, é na verdade todo lacrado com chumbo, uma vez ali dentro ele será nosso. – coçou a barba mal feita – digo, daqueles putos da inteligência – sorriu amargamente.

A operação seria arriscada, ainda mais com novatos, ”mas o que poderia fazer?”, Roberto se questionara por toda uma tarde sentado em um amontoado de lixo que já havia sido um restaurane da franquia Black Dog. Nada, essa era resposta, infelizmente não havia opção e a missão tinha que ser cumprida.

Maldito dia que tirara uma folga obrigado pelo General de campanha, odiosa data em que uma falha da inteligência liquidara com sua companhia, insuportável peso de ser um sobrevivente, um órfão a carregar ad eternum a dúvida ”será que se estivesse lá teria sido diferente?”, ”poderia minha placa balística ter salvo pelo menos um de meus 20 homens?”… Olhou com maldade para uma granada presa a sua jaqueta, seria só deixar no contâiner e quando aqueles desgraçados abrissem achando que tinham ganhado o dia, voariam pelo seus limpíssimos laboratórios aos pedaços, tingindo tudo de um rubro tom de justiça. Quem sabe… quem sabe….era algo a se pensar, mas depois, o céu já estava escuro e os homens em posição. Essa noite o caçador manteria o título.

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Sobre Dalton Almeida

Escritor, jornalista e game designer.

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