Amor de mãe

Sem sombra de dúvidas a primeira grande baixa em uma guerra é o conforto.  Não falo necessariamente de uma cama macia e de uma roupa confortável, embora também disso, mas estou somando o acesso a um banho gelado quando quente ou quente quando gelado. Nessa guerra maldita, isso se tornou luxo, a ponto de ser um dia de sorte quando se tem água. Acredite, um dos países com a maior bacia hidrográfica do mundo, com sua população drasticamente reduzida por ataques genocídas e, ainda, é raro um banho que não seja químico.
Um exército de submarinistas, é isso que somos, controlando cada gota d’água como se fosse a última e nos esfregando com esponjas úmidas de desinfetantes de campanha ao fim de cada missão ou ciclo de trabalho.
É óbvio que os grandes rios e lagos brasileiros não  evaporaram ou foram engolidos pelas terra, estando agora a repousar lado a lado a incontáveis de nossos amigos e companheiros de farda. Não! Eles continuam a refulgir ao sol, cavar seus canions e desaguar no mar. O porém é que estão venenosos, contaminados pelas armas químicas, pelo necrochorume sem fim que escorre dos escombros das cidades ou cercados pelo inimigo. Estes, não passam de armadilhas caudalosas. Ah sim, muitos outros, ainda contam com a poluição radioativa, legado das ogivas detonadas sobre as principais cidades da nação. Confiamos em sistemas antimísseis da OTAN e da Rússia, só para chorarmos junto a eles graças a tamanha ineficácia.
Se me sobrasse uma só gota, uma apenas, não pouparia para limpar o rosto do garoto à minha frente, olhos vidrados por trás de pálpebras cerradas por mim mesmo, uma grande medalha de bravura presa ao uniforme em frangalhos e uma história de sucesso, de preço inescrupuloso, logo em sua primeira missão.
Tínhamos o maldito drone, é verdade, mas a armadilha falhara miseravelmente e a solução pesara nas costas corajosas de um único soldado. Um sacrifício que revertera uma situação limite e foi pago em sangue.
Então, mais uma vez, as portas basculantes brancas se abriram. E logo atrás do legista veio o esperado casal de idosos, pais de uma única criança, um educado e valoroso garoto.
Em posição de  sentido fiquei por trás do jovem estendido. Só que estava invisível, como é todo o oficial frente a dor civil.
O pai fez que sim com a cabeça ao homem de jaleco branco, enquanto puxava a si a mulher aos prantos, prestes a se jogar sobre o cadáver. Deram meia volta e saíram lentamente, as portas ainda se fechavam quando ouvi a voz esganiçada e baixa da senhora a seu marido “viu, viu como seu rosto estava sujo… Gostaria de limpa-lo…. só mais uma vez”…
Minha posição de sentido enfraqueceu, sempre…essa reação… nunca estava preparado ou forte o suficiente para o delicado e terno carinho da maternidade.

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Sobre Dalton Almeida

Escritor, jornalista e game designer.

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