Pão e leite – (um exercício de escrita de final de dia)

Lúcio levantou-se apenas quando todos os sons cessaram. Não ouvia mais metal contra metal, gritos, resmungos, pedidos de misericórdia ou berrantes de batalha. Ergueu o rosto da lama vagarosamente.

Ouvia a sua volta o crepitar de madeira, já carvão, livrando-se das últimas chamas insistentes. Seu corpo, pequeno e frágil, era facilmente identificável na poça de água e sangue em que estava estirado, ainda que sob uma consistente camada de fuligem e folhas. Centenas de homens a cavalo, talvez milhares a pé, haviam visto o pequeno arremedo de homem ali, imóvel, durante a invasão que se seguiu a uma batalha próxima. 

Ainda sim, não tinha sido tocado. O motivo era simples, estava perigosamente próximo de grande poço em ruínas, uma fenda mortal, cercada de uma lama escorregadia e em declive, que para qualquer soldado seria o mesmo que um suicídio por afogamento na escuridão. Sem contar que um corpo infantil e plebeu, vestindo trapos imundos da pior qualidade, imóvel e aparentemente já não respirando, não valeria o risco de nem mesmo ser usado para brincadeiras cruéis.

Durante o longo “descanso”, apenas um cão da vizinhança arriscou uma aproximação, mas curta, afastado rapidamente pela visão de matilhas inimigas em aproximação. Sabia que o amigo de tantos nacos de carne, ali, estirado, estava bem vivo, mas o que fazer? Seu instinto o impelia para longe, o mais longe possível e assim o fez.

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Para um menino de 6 anos, tão acostumado a jogos de esconde-esconde, nunca havia sido tão aterrorizante ficar imóvel e às claras, embora, na prática escondido. Mais do que isso, estava cego pela lama, mas não surdo, e além de poder sentir o calor do fogo a sua volta, lambendo suas costas, escutara o característico som de aliados digladiando-se pelo botim em meio ao saque, o estupros de mulheres, velhas e crianças, muitas dela suas conhecidas e, ainda, tivera de ouvir a execução de vários homens, entre eles seus irmãos mais velhos e seu próprio pai.

A tudo, como prometera, ficará imóvel. Horas infindáveis, mas agora terminadas. Retirou o pequeno tubo de cobre da boca e arrancou-o de sua posição sob as axilas, o segredo, que havia permitido que respirasse furtivamente. Retirou o excesso de sujeira do rosto com os dedos e, finalmente, olhou em volta.

Era manhã e garoava, do outro lado do pátio um padre e uma freira arrastavam aos tropeções, cada qual, um corpo até uma pilha próxima. A freira chorava silenciosa, o padre rezava e mancava de um ferimento à espada na perna. Fitou-os em silêncio, enquanto deixava o lento acúmulo de água começar a escorrer e, assim, limpar sua face imunda. Respirava em profundos tragos o ar, como se precisasse reaprender a usar o nariz, e o cheiro de carne queimada que irradiava de toda à volta virava seu estômago vazio.

Ali, sentado, como um pequeno monte de lama mais alto, mas que aos poucos se descoloria em gente, se manteve por vários minutos. Ninguém o notou, fossem mortos ou vivos.Cansado, levantou-se ao notar que a garoa insistente apertava e se aproxima perigosamente de uma chuva adulta. Calmo e quieto dirigiu-se para o armazém de seu tio. O local estava, absolutamente revirado, mas ao contrário de quase todos os outros, não havia sido incendiado.

Desviando os pés das ataduras por todo o chão, entrou, pegou uma caneca de chumbo no chão, balançou-a para retirar a fuligem de dentro e sentou-se a frente da pesada mesa de madeira que vazia, tinha a superfície tomada por sangue. Pensou em sua mãe, no derradeiro momento quando mandará que ficasse deitado na lama e, fingindo-se de afogado como na brincadeira em que a assustará como nunca, só levantasse quando nada mais pudesse ouvir. Ainda sentia o beijo na testa e o abraço do pai e dos irmãos. 
Ouviu o forte crepitar da pira de corpos sendo acessa e o afugentar dos corvos em seu topo, com batidas irritadas de suas asas negras. Sentia frio, tremia, sabia que todos estavam mortos, menos o padre, aquele a que sua mãe dissera que devia procurar ao acordar. Viu pela porta a fumaça da pira, arrastada pelo vento, varrendo às ruas. Podia identificar uma lamuriosa reza à distância, respirou fundo e começou a bater com o copo sobre a madeira sólida da mesa. Cada nova batida levantava lascas ferruginosas de sangue coagulando expondo ao ar quantidades ainda vivas e úmidas.

A chuva diminuí e parou por completo, demorou poucos instantes, mas pode ouvir passos rápidos em sua direção. Ambos os religiosos, boquiabertos pararam a porta.

– Padre, tem leite ou pão? Sopa? Queijo…por favor?

A freira desabou de joelhos. O padre, com a mão em seu ombro e um olhar misto de surpresa e descrença, sorriu levemente.

– Irmã, graças a Deus, sobrou alguém… e ele está com fome…

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