25

– Vinte e cinco senhor…. esse é o número…

O tenente retirou o capacete para coçar a nuca com as mãos imundas da típica lama negra do norte da França. Fez que “sim” com a cabeça e voltou a olhar o mapa em suas mãos, enquanto imaginava como deveria ter sido lindo aquele pedaço de terra anos atrás e o soldado se retirava.Imagem

– Queimem os corpos, não esqueçam de fazê-lo com algumas moedas de prata. As roupas devem ser estendidas naquela cratera próxima a linha de árvores… sabem o por quê. O Sol vai limpá-las,não se preocupem. Façam isso pela manhã, sim, é claro Jeremy, assim que ele nascer… não, Carlos, seu idiota, os corpos devem ser torrados nos próximos minutos. – O soldado constrangido concordou, entre tremedeiras. 

– Até parece que não fizeram treinamento básico com o capelão… Deus… o capelão. – O sargento embargado, deu às costas e se retirou, entrando na “toca” de seu tenente. 
O homem alto e forte, decadente nos últimos meses, ouvira as instruções de trás de sua escrivaninha enlameada pelas botas e polainas que, displicentemente, apoiava sobre um monte de papéis oficiais. Olhou por meio do grosso copo de uísque o subalterno e, sem palavras, rolou a garrafa de vinho, cheia de uísque, por sobre o tampo para o homem que, sabia, só esperava uma chance para mais e mais tragos.

O barulho de lama e sucção, o mais alto som naquela guerra, veio logo em seguida, se arrastando pelos meandros terrosos do buraco irregular que chamam de “lar”. Na escuridão, soldados britânicos começaram a transportar os corpos arrebentados e rasgados de seus colegas e de alemães que haviam tentado uma investida noturna. Nunca esqueceriam os gritos desesperados e as palavras pedindo piedade, mesmo naquela língua grosseira, que haviam se espalhado pelas trevas da noite de inverso. O grupo de inimigos, vivo, havia sido fatiado e bebido a poucos metros de suas trincheiras. Sabiam bem como havia acontecido e não se surpreenderam quando muitos dos seus também foram atacados. A opinião geral era a mesma: Graças ao Rei tinham um capelão, por culpa do papa só tinham um e por exclusiva responsabilidade da Igreja precisavam deles.

Todos, silenciosos e enojados, choravam, revolvendo a lama do chão enquanto arrastavam os corpos para a pira funerária improvisada. Lágrimas grossas pela desidratação, quentes pela raiva e brilhantes à luz dos cigarros acessos, riscavam, com sua pureza, as faces imundas de barro. Fossem amigos ou inimigos, ninguém merecia o que havia se sucedido e, em respeito, mesmo sob risco, ninguém se negou a trabalhar para que tantos desgraçados não tivessem muito mais, por muito mais tempo e, inevitavelmente, fazendo ainda mais vítimas. O sol limparia tudo, essa era a regra, não havia nada mais amado que o sol naqueles dias e nada mais odiado que a noite.

***

Anúncios